“O Artífice” – Sherlock Homes nos ensinou a nos fascinarmos pelos romances policiais londrinos, muitas décadas atrás. Portanto todo e qualquer romance na mesma linha – e que ainda utilize igualmente Londres como cenário – soará como plágio à obra máxima de Sir Arthur Conan Doyle, certo?

Retumbantemente errado. Tal afirmação, aliás, não poderia estar mais distante da realidade. E quem nos prova isto é ninguém menos que um autor brasileiro, e logo em sua primeira aventura literária.

Estamos falando do livro “O Artífice”, de Tony Ferraz, uma das mais gratas surpresas que tivemos na última Bienal do Livro paulistana. Na ocasião nós falamos com o próprio Tony, que lá estava no estande da Universo dos Livros à orgulhosamente autografar sua obra, e com quem conversamos um pouco sobre a trama que dá tom ao conto. Após o bate-papo, a vontade de ler sua criação só aumentou – e finalmente a agradável tarefa foi cumprida por nós do Zumbicast (ainda que com algum atraso).

Nossa impressão? Sabe quando nos sentimos “órfãos” ao terminar um ótimo livro e nos pegarmos tristes por ter acabado?
Bem, eis aí nossa impressão.

ResenhaArtifice1

Em “O Artífice”, o detetive Haryel Kitten trava um duelo com um Serial Killer misterioso, brilhante, malévolo e bastante peculiar: sua maneira de eliminar suas vítimas envolve artefatos complexos instalados com maestria e precisão pelo assassino. Sem deixar pistas para trás além de mensagens com charadas misteriosas, o vilão invisível aterroriza Londres com seus passeios mortais e vai deixando Kitten cada vez mais perplexo… Até que nosso detetive, em uma das vítimas, encontra um objeto que muda o rumo da história.

Este é o gancho que leva nossa trama a sutilmente nos envolver em elementos que, até onde tocam meus conhecimentos, jamais haviam sido usados misturados desta maneira: as tradicionais culturas zen do Budismo, Hinduísmo e Taoísmo.

Impressionante como Tony Ferraz introduz tais elementos na trama e nos fascinamos quase que imediatamente por eles. Isso porque as misteriosas e enigmáticas notas que o Artífice (como o assassino é apelidado no livro) deixa com suas vítimas, as formas maleficamente engenhosas com as quais ele as mata e o fato dele parecer impossível de ser rastreado abre a janela para que nós precisemos de algo místico – sobrenatural até – que nos ajude a tentar entender como ele consegue fazer isso. A própria trama abre o precedente para que o misticismo adentre sem pedir licença, tampouco precisar ser explicado. Em meu caso, recebi estes elementos de braços abertos e apenas vi meu interesse cada vez mais desperto na trama e caçada de nosso herói Haryel Kitten e seu ajudante Paul.

ResenhaArtifice2

Zotto Vaz conversa com o autor Tony Ferraz durante a Bienal SP 2014

E por falar em Kitten, que protagonista ele é: sarcástico na medida, interessante e também genial sem parecer forçado. Parece ser fácil criarmos super-heróis “sem querer” hoje em dia, apenas descrevendo alguém normal de forma exagerada. Porém Tony Ferraz parece saber dosar o quanto Haryel Kitten pode ser um cara interessante sem que isso soe exagerado.

Para não entregar qualquer detalhe, termino por lembrar e avisar à todos que este conto não é daqueles que matamos logo de cara o final. Quem curte reviravoltas e “twists of fate” vai realmente sentir-se em casa quando a trama lhe zombar da cara ao mostrar que o que você pensara não era realmente a verdade. E não adoramos isso?

Para finalizar, deixo aqui meu diálogo favorito do livro, juntamente com nossa recomendação: leia “O Artífice” sem medo de errar. O mercado literário nacional vê nascer mais uma grande promessa do suspense!

(…) – Sabe quanto vale a Mona Lisa?
– Não, mas deve ser muito…
– E é, não tem preço. Se você juntasse todo o dinheiro do mundo, nem assim a teria. Ora, se um pedaço de papel rabiscado não pode ser comprado, como queres comprar uma vida?

Nota 4 e meio

Geminiano em todos os aspectos, amante do suspense e mistério em todas as formas do entretenimento. Como um bom fã de Stephen King levo em meu coração as palavras de um pistoleiro a procura do seu Katet. "Eu não mato com a arma; Aquele que mata com a arma esqueceu o rosto do pai. Mato com o coração."