Minha mãe nunca foi uma mulher extremamente religiosa, no entanto ela tem imagens de varias religiões espalhadas pela casa. Algumas foram presentes, outras ela mesma adquiriu mas sempre fez todos os rituais referentes a cada uma delas. Os acontecimentos que contarei a seguir ocorreram durante uma viagem que ela fez às pressas, deste modo não tendo tido como “alimentar” todas as entidades presentes na minha casa.

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Numa sexta à tarde, minha tia ligou e pediu que minha mãe fosse ao litoral ajuda-la a empacotar sua mudança pois ela havia recentemente sido demitida do cargo que ocupava na prefeitura. Sendo assim, em questão de uns quarenta minutos, as malas já estavam prontas e ela colocou as coisas no carro, pronta pra pegar a estrada. Fiquei extremamente animado, afinal pretendia fazer uma festa… Mal sabia eu que esse seria o final de semana mais aterrorizante que eu teria em toda a minha vida.
Assim que minha mãe saiu, liguei pra minha namorada pra avisar que estava indo busca-la. O trajeto total deve ter durado no máximo quinze minutos, afinal devido ao horário o transito não estava lotado. Quando chegamos em casa o primeiro sinal de que algo estava errado foi visto. Meu cachorro estava escondido no vão que há embaixo do tanque na lavanderia todo urinado e ganindo muito, como se estivesse apanhando. Como não sabia do que se tratava, apenas chamei o veterinário e o mandei para passar o final de semana na clínica fazendo um check-up.

Após limpar a área de serviço, nós jantamos e nos preparamos para dormir, afinal o churrasco começaria cedo no dia seguinte. Por volta das três da manhã, minha namorada me acordou quase chorando pois estava escutando algo arranhar a porta do meu quarto que fica no segundo andar da casa. Fiquei alguns minutos em silêncio e não escutei barulho algum. Tentei acalma-la, e voltei a dormir. Cerca de cinco minutos depois, o telefone do meu quarto (que tem o formato de um crânio) começou a tocar. Imaginando que era a minha mãe ligando por um motivo qualquer eu estiquei o braço e atendi, mas apenas um forte chiado pode ser ouvido, com as palavras “tenho fome” se misturando ao fundo do ruído. Recoloquei o fone no gancho mas antes que eu pudesse me virar, o telefone começou a tocar novamente. A mesma situação se repetiu, um forte chiado e as palavras misturadas sendo sussurradas. Tornei a colocar o fone no gancho só para mais uma vez mais ver o mesmo tornar a ocorrer. Com um pouco de raiva, pois acreditava ser uma linha cruzada, retirei o aparelho da tomada – talvez o maior erro da minha vida.
Pois foi nesse momento, que o pesadelo começou de verdade.

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Ao deitar novamente, pude escutar nitidamente o telefone tocar, e foi quando me virei pra tentar entender o que eu poderia estar acontecendo. Os olhos do crânio estavam emanando uma luz vermelha e ele falou comigo: “Tenho fome… tenho fome… tenho fome…”.

Senti minha namorada segurar meu braço com força e começar a chorar. Mesmo assustado, tive coragem o suficiente para tentar acalma-la e levantar pra sair do quarto. Quando me viro na cama, descubro que a mulher que me segurava e chorava não era a minha pequena loirinha, e sim uma senhora idosa, com os olhos cheios d’agua, balbuciando a frase que havia começado tudo: “Tenho fome…” em uma explosão de medo, pulei da cama e tentei acender a luz. Nada aconteceu…

Escutei um grito de terror vindo do andar de baixo da casa, conhecia aquela voz – era a minha namorada! Abri a porta apenas com tempo suficiente para dar de cara com um homem usando uma capa e uma cartola, um rosto marcado pelo tempo, e dentes realmente pontiagudos, falando com uma voz truculenta e gutural a maldita frase: “Tenho fome…”.
Não sei de onde me veio à coragem… mas tentei empurrar a sinistra figura que estava em frente à porta do meu quarto. Minhas mãos vararam no ar, mas eu estava sem muito tempo pra compreender e nem tinha naquele momento muito interesse no arrepiante fato também. Desci as escadas correndo tentando chegar à cozinha de onde os gritos estavam vindo. Ao chegar à sala senti eu corpo todo gelar ao dar de frente com o pequeno altar que minha mãe tem ao lado da porta. A chama da vela de sete dias, acesa para Nossa Senhora, estava enorme e iluminava praticamente o andar inteiro da casa. Pude ver algumas formas em torno das chamas enquanto nitidamente a imagem tinha lágrimas de sangue brotando em sua face.

Não sei quanto tempo fiquei paralisado na beira da escada, mas um grito me despertou novamente vindo da cozinha: o grito da minha amada me libertou do pânico absoluto. Ao entrar na cozinha, escorreguei em algo viscoso. Um cheiro forte e doce podia ser sentido no ambiente e então, novamente, fiquei preso ao completo desespero, incapaz de me mover: no centro da cozinha, o corpo da minha namorada estava caído com o ventre aberto. Em seu ultimo folego, pude escutar ela sussurrando: “…socorro…”. Em seguida, varias formas sombrias pularam pra próximo dela, bebendo seu sangue.

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Isto está acontecendo agora mesmo. Vocês devem me achar louco por estar postando isso aqui ao em vez de tentar escapar de toda essa loucura… Mas eu sou o próximo, posso escutar a porta do banheiro sendo arranhada. Em breve estarão aqui dentro, e eu servirei de alimento para todos eles… Só espero que essa mensagem chegue até minha mãe, e que ela não volte pra casa…

Geminiano em todos os aspectos, amante do suspense e mistério em todas as formas do entretenimento. Como um bom fã de Stephen King levo em meu coração as palavras de um pistoleiro a procura do seu Katet. "Eu não mato com a arma; Aquele que mata com a arma esqueceu o rosto do pai. Mato com o coração."